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Quinta-feira, 16 de Abril de 2026

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Dia da Consciência Negra exige dose de 'paciência negra' diante de clichês

População preta e parda lida com questionamentos repetidos ano após ano, mesmo que temas já tenham sido amplamente debatidos

Dia da Consciência Negra exige dose de 'paciência negra' diante de clichês
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Criado para dar visibilidade à história, cultura e luta do povo negro no Brasil, o Dia da Consciência Negra, celebrado nesta segunda-feira (20), é também, paradoxalmente, uma data que costuma exigir dose extra de paciência por parte de ativistas, intelectuais e artistas negros que, ano após ano, por ocasião deste marco, se deparam com uma série de questionamentos repetidos e clichês vazios, que exigem deles didáticas explicações para temas que, na verdade, já foram amplamente debatidos pela sociedade. Caso, por exemplo, de uma reiterada recusa em reconhecer a importância do próprio Dia da Consciência Negra e a efetividade das cotas raciais ou, ainda, uma má vontade em se discutir e compreender conceitos como o de racismo estrutural.

Na avaliação de Pablo Moreno Fernandes Viana, professor de Comunicação Social e pesquisador sobre mídia e racismo, a repetição desses questionamentos é parte do projeto racial construído na sociedade brasileira, que ainda reproduz clichês e estereótipos sobre a população negra e para a qual estes tantos temas raciais ainda não se consolidaram como conhecimento.

Um episódio recente que ilustra esse comportamento foi a fala recente do presidente da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Jorge Perlingeiro, 78, que, durante uma entrevista ao podcast “Só se for agora”, questionou a identidade racial do carnavalesco Antônio Gonzaga, da Portela. “Você é negro? Precisamos dar uma mão de tinta em você porque está muito clarinho”, disse ele durante o programa em que ouvia, dos convidados, explicações sobre qual seria o enredo portelense do próximo ano, que, no caso, é justamente sobre a questão racial, tendo como foco o livro “Um Defeito de Cor”, da escritora mineira Ana Maria Gonçalves. 

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Nas redes sociais, as falas de Perlingeiro foram apontadas como um exemplo cristalino e revelador de uma insistente ignorância sobre a diversidade da população negra brasileira, fruto de uma miscigenação forçada e violenta durante o período escravocrata. Além disso, o que para o presidente da Liesa era entendido como uma “brincadeira”, como tentou justificar, pareceu, para muitos, uma tentativa de desqualificar a autoridade de Gonzaga para falar sobre o tema a partir da anulação de sua identidade e experiência, como se ele não fosse negro o suficiente para abordar a questão racial. Após toda essa repercussão negativa, Perlingeiro chegou a publicar um vídeo se desculpando.

Repetidos à exaustão

Pablo Moreno argumenta que a repetição dos questionamentos sobre temas raciais faz parte do projeto racista que foi construído na sociedade brasileira. Uma sociedade que foi formada a partir de quase quatro séculos de escravidão e, depois desse período, em vez de enfrentar essa realidade, optou por iniciar um processo de negação das violências cometidas contra os povos negros trazidos da África. Diante desse quadro, o professor de Comunicação Social lembra que o enfrentamento ao racismo como política de Estado, como consciência de sociedade, como prática coletiva, ainda é muito recente e enfrenta muita resistência. “Então, considerando essa resiliência da lógica escravocrata, classista e racista que habita a nossa sociedade, considero que esse comportamento não surpreende”, pontua.

Ele avalia que esses questionamentos se repetem por dois motivos: primeiro, porque eles ainda não se tornaram conhecimento consolidado para grande parte da população, pois as políticas de ensino sobre relações raciais, relações étnico-raciais, história e cultura afro-brasileira, são políticas muito recentes nas diretrizes curriculares e que ainda enfrentam muita dificuldade para serem colocadas em prática; e, segundo, porque essa lógica racista tenta se reforçar e manter a ideia de que as pessoas negras continuam a serviço de uma branquitude dominante. Moreno acrescenta que a mídia brasileira tem papel fundamental na perpetuação desse pensamento. Segundo ele, historicamente, ela se comportou como agente que é parte da formação cultural do nosso país, com grande responsabilidade na consolidação do processo racista e da lógica social escravista por meio da reprodução de violências contra a população negra a partir de processos de

representação e do apagamento de uma representatividade negra.

Ao mesmo tempo, o estudioso reconhece o início de um compromisso da mídia com maior representatividade e com melhores representações das populações negras nos tempos mais recentes. Ele lembra que, a partir desse movimento, datas como o Dia da Consciência Negra ganharam mais projeção, passando a serem celebradas a partir de programas especiais que se propõe a debater questões raciais – algo que é especialmente importante dado que a constituição do Brasil, além de ter nas escolas esse lugar de formação, atribui à mídia uma função educacional. “Por isso, entendo que a mídia tem essa responsabilidade pela formação, pela educação do povo brasileiro, ainda mais considerando o desserviço que a mídia fez ao longo da história”, assevera.

Pautas avançam

Apesar de o debate racial parecer estacionado para algumas pessoas, que sempre voltam aos mesmos temas quando abordam essa questão, Pablo Moreno sustenta que essas pautas têm avançado. “Notamos, por exemplo, que a mídia tem discutido mais o racismo, que temos mais diversidade nos programas de televisão, nos reality shows, nas produções seriadas, no cinema. E não só no lugar da dor, mas também no lugar da afirmação positiva da negritude. A gente tem uma música preta brasileira ganhando mais destaque nos festivais, na programação da TV, nos videoclipes, nas premiações. E isso é muito prazeroso. A gente vê todo esse talento sendo reconhecido e tendo chance de se expressar”, analisa, inteirando ter uma visão otimista, mesmo acreditando que a principal demanda do movimento negro brasileiro é ainda muito básica: o direito à vida.

“As nossas demandas são muitas, pois estamos falando de um movimento plural e complexo. A gente pensa no fim da violência policial, no fim do racismo ambiental, no enfrentamento ao racismo institucional que nega às pessoas negras iguais condições de disputa por emprego, por melhores salários, por condições dignas de trabalho. A gente pode pensar também nas políticas de cotas, que foram ampliadas e sofisticadas, mas ainda sofrem muitos ataques, porque há uma negação constante sobre as responsabilidades estruturais do Brasil como sociedade, como estado, na promoção da violência contra as pessoas negras. Então, eu acho que essas demandas e desafios passam por esse lugar de reivindicação à vida, à humanidade, por melhores representações e por melhor representatividade”, examina.

Pablo acrescenta que se pudesse citar uma demanda mais urgente, diria que a principal preocupação da população negra, hoje em dia, é com o genocídio. “Se a gente olhar os dados sobre violência policial, assassinatos, racismo ambiental, entre outros, a gente vê que a população negra está sempre às margens, sempre submetida a esses lugares de violência. Portanto, a nossa pauta mais urgente é a luta pela vida”, conclui.

 

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