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Segunda-feira, 01 de Junho de 2026

Notícias/Saúde

A 'tempestade perfeita' que explica explosão de casos de dengue no Brasil

Em apenas dois meses e meio, 2024 já se tornou o pior ano da dengue na série histórica brasileira

A 'tempestade perfeita' que explica explosão de casos de dengue no Brasil
Crescimento desordenado das cidades e falta de saneamento básico representam uma boa notícia para o mosquito transmissor da dengue, divulgação
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Esse número supera — em mais de 500 mil — todos os diagnósticos da doença no ano passado inteiro. Também simboliza a pior crise sanitária relacionada ao vírus transmitido pelo mosquito Aedes aegypti desde o início da série histórica do Ministério da Saúde, a partir do ano 2000.
A pior temporada de dengue havia sido em 2015, quando o país teve 1,68 milhão de casos prováveis. Na sequência, vinha 2023, com 1,65 milhão. 

Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, uma "tempestade perfeita" — que engloba mudanças climáticas, fenômenos meteorológicos, subtipos de vírus e falhas de políticas públicas — ajuda a entender a epidemia atual.
De acordo com sua avaliação, é necessário lançar um conjunto de estratégias para mitigar os riscos e evitar que os números continuem elevados — ou sejam ainda piores de 2025 em diante.

 

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Um vírus de diferentes faces


Para entender os desafios de lidar com a dengue, é preciso antes conhecer alguns detalhes sobre o vírus por trás dessa doença.
O patógeno tem quatro versões diferentes, que são conhecidas pelas siglas Denv-1, Denv-2, Denv-3 e Denv-4.
Na prática, isso significa que uma mesma pessoa pode ter dengue quatro vezes na vida.
Ela pode ser picada por um Aedes aegypti que carrega o Denv-1, por exemplo — e, após a recuperação, ficar imune contra esse subtipo específico do vírus. Mas, caso seja picada por um mosquito que carrega o Denv-2, o Denv-3 ou o Denv-4, pode desenvolver a doença uma segunda vez (e uma terceira ou quarta). 

Essa característica da dengue cria uma dinâmica específica de transmissão, cujos padrões se repetem mais ou menos a cada cinco anos.
É frequente que uma determinada região ou cidade seja acometida por um subtipo específico do vírus durante uma ou algumas temporadas de calor. Passado um tempo, quando a maior parte da população já foi infectada — e, portanto, está protegida contra aquele subtipo —, os casos tendem a baixar por uma espécie de imunidade coletiva — até que outra versão se dissemine e dê início a um novo ciclo de transmissão.
Esse tipo de fenômeno parece ter ocorrido no último verão.


"Tudo sugere que houve uma inversão dos vírus circulantes nas cidades que são, historicamente, atingidas pela dengue, como Rio de Janeiro e São Paulo", resume o pesquisador em saúde pública Leonardo Bastos, da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), que coordena o InfoDengue, uma plataforma pública que reúne estatísticas e análises sobre a doença no país.
"Em lugares em que antes predominava o Denv-1, o Denv-2 passou a circular com mais intensidade, ou vice-versa."


Ao mesmo tempo, houve um aumento da circulação do Denv-3 e do Denv-4, que não apareciam com grande intensidade no Brasil há décadas, acrescenta a infectologista Raquel Stucchi, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Ou seja: esse rearranjo de versões virais, que pegam uma grande parcela da população desprotegida e sem imunidade, é o primeiro ingrediente que ajuda a entender a atual situação sanitária. 

Mas não é suficiente para explicar todo o cenário.

 

Um mosquito que ganha terreno


O segundo elemento da lista envolve uma espécie de expansão de território do Aedes aegypti.
Em artigo de revisão publicado em 14 de março no periódico acadêmico Nature Reviews Microbiology, o virologista brasileiro William M. de Souza, professor da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, resumiu os efeitos das mudanças climáticas e das atividades humanas nas doenças transmitidas por vetores (como é o caso da dengue). "Primeiro, precisamos destacar a mudança demográfica. As pessoas moram cada vez mais em áreas urbanas, e o Aedes é um mosquito que vive nas cidades", destaca Souza.
"Ou seja, com um número maior de indivíduos concentrados em um espaço pequeno, há uma chance ampliada de o mosquito conseguir transmitir mais e mais."
Soma-se a isso o fato de a expansão das cidades brasileiras acontecer na maioria das vezes de uma forma desordenada e desigual, sem saneamento básico ou coleta de lixo.
Isso, por sua vez, também representa uma boa notícia para o mosquito, que encontra um vasto número de reservatórios de água parada para botar os ovos, se reproduzir e perpetuar os ciclos de transmissão e infecção.
"A especulação imobiliária diminui áreas de mata e aumenta os criadouros do Aedes em regiões domésticas e urbanas", resume Stucchi, que também integra a Sociedade Brasileira de Infectologia. Para piorar, todo esse fenômeno é catapultado no Brasil e no mundo pelas mudanças climáticas, que geram aumento da temperatura média e alterações nos regimes de chuvas.
"Historicamente, as zonas temperadas do planeta, como partes dos Estados Unidos e Europa, não tinham a circulação de vetores transmissores de doenças. Eles ficavam restritos às regiões tropicais", explica Souza.
Mas isso mudou recentemente: o Aedes foi flagrado em partes dos Estados Unidos, como a Flórida, e na região do Mediterrâneo, como na Itália e França.
"No Brasil, os Estados do Sul não sofriam com surtos ou epidemias de dengue. Mas as mudanças climáticas geraram condições favoráveis para o mosquito nesta região", destaca Bastos, da FioCruz.
"Com toda uma população vulnerável à dengue, os casos explodiram ali nos últimos anos."

 

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Luana

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Luana

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