O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que as exportações brasileiras sofrerão uma sobretaxa de 50% a partir de 1º de agosto, foi recebido com preocupação por analistas e autoridades brasileiras. A decisão, enviada em carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na quarta-feira (9), foi justificada por Trump como uma resposta à suposta perseguição judicial ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ao que chamou de desequilíbrio nas relações comerciais entre os dois países.
O cientista político e professor Cláudio André de Souza avaliou que o gesto tem caráter político e levanta suspeitas de interferência direta no processo eleitoral brasileiro. “Trump quer interferir diretamente num outro país. Do ponto de vista de justiça, de eleição, de julgamento, os Estados Unidos não têm que ver nada em relação ao Brasil, mas ele promove isso provavelmente, o que a gente suspeita, num jogo combinado com o ex-presidente Jair Bolsonaro para desestabilizar a política brasileira”, afirmou.
Impacto econômico
A medida afeta diretamente setores importantes da economia nacional. Segundo Cláudio André, 18% das exportações brasileiras para os EUA são de petróleo e derivados; 13,2%, de ferro ou aço bruto. “Impacta também o café. Pensando inclusive no agro, no setor que exporta commodities como milho e soja, estamos diante de uma situação de muita incerteza. E tudo que o mercado faz do ponto de vista da produção é trabalhar com a previsibilidade dos negócios”, destacou.
Além dos danos econômicos, o professor chamou atenção para a inconsistência dos argumentos apresentados por Trump. Embora o presidente norte-americano tenha afirmado que o Brasil adota barreiras comerciais contra os EUA, os dados oficiais mostram o contrário: nos últimos dez anos, a balança comercial foi favorável ao lado americano, com saldo positivo de US$ 43 bilhões.
Caráter político
O conteúdo da carta enviada por Trump também inclui críticas diretas à Justiça brasileira, algo que, para Cláudio, ultrapassa os limites das relações diplomáticas. “Ele coloca críticas muito frontais ao Judiciário brasileiro, à Justiça brasileira, ao sistema do Judiciário brasileiro. Isso é um ponto de alerta, que tem um caráter eminentemente político”, analisou.
O professor relembrou que essa estratégia de sobretaxas foi iniciada ainda no primeiro governo Trump, em 2018, com foco inicial na China. “É uma política comercial protecionista que busca proteger a cadeia produtiva estadunidense, mas também é usada como barganha política para pressionar outros países a se curvarem aos interesses norte-americanos”, explicou.
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